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Quando bate uma crise



"Sentimentos como decepção, constrangimento, irritação, ressentimento, raiva, ciúme e medo, em vez de significarem más notícias, representam momentos muito claros que nos mostram onde estamos nos detendo. Este exato momento é o mestre perfeito e, para nossa sorte, está conosco onde quer que estejamos.


Os acontecimentos e pessoas que desencadeiam nossas questões mal resolvidas poderiam ser vistos como boas notícias. Não precisamos sair em busca de nada. Não precisamos criar situações que nos façam chegar ao limite. Elas ocorrem por si mesmas, com a regularidade de um relógio. Todos os dias nos são dadas inúmeras oportunidades de abertura ou fechamento. A oportunidade mais preciosa se apresenta quando nos deparamos com uma situação com a qual achamos que não sabemos lidar. É demais. Foi longe demais e nos sentimos mal conosco mesmos. Não há como manipular a situação e sair-se bem dela. Por mais que tentemos, nada funciona. Basicamente, a vida nos pegou.


De modo geral, não encaramos essas situações como ensinamentos. Nós as detestamos automaticamente. Corremos como loucos. Fazemos uso de todo tipo de fuga — todas as dependências se iniciam no momento em que chegamos ao limite e não podemos suportar isso. Sentimos que é preciso abrandar, acolchoar a situação de alguma forma, e nos tornamos dependentes daquilo que parece diminuir a dor.


Existem muitas fórmulas destinadas a nos distrair do momento presente, suavizar e atenuar suas ásperas arestas, para não termos de receber o total impacto da dor que surge quando não conseguimos manipular a situação e sair dela com nossa boa imagem intacta. Basicamente, decepção, confusão e todas as situações em que nos sentimos mal são como uma espécie de morte. Perdemos completamente nossa base. Não somos capazes de impedir a desintegração e sentimos que não temos mais o controle dos acontecimentos. Em vez de perceber que é preciso existir a morte para haver nascimento, apenas lutamos contra o medo de morrer.

Chegar ao limite não é algum tipo de punição. Na verdade, sentir medo e tremer, quando estamos prestes a morrer, é um sinal de saúde. Outro sinal de saúde é não sermos destruídos pelo medo e pelo tremor, mas encará-los como um aviso de que está na hora de interromper a luta e olhar diretamente para aquilo que nos ameaça.


Sentimentos como decepção e ansiedade são como mensageiros avisando-nos de que estamos no limiar de um território desconhecido. Para alguns de nós, o território desconhecido pode ser a escuridão do armário. Para outros, uma viagem espacial. O que causa esperança e medo em mim é diferente do que provoca os mesmos sentimentos em outras pessoas. Minha tia chega ao seu limite quando mudo de lugar um abajur da sua sala. Uma amiga se perde totalmente quando precisa mudar-se para um novo apartamento. Meu vizinho tem medo de altura.


Não importa o que nos faz chegar ao limite. A questão é que, cedo ou tarde, isso acontece a todos nós."


Do Autoconsciente Podcast episódio 135 - Bateu uma crise - trechos do livro "Quando tudo se desfaz", de Pema Chodron

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