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O papel da inveja no autoconhecimento




Em sua obra "Divina Comédia", o escritor italiano Dante Alighieri retratou o purgatório como uma montanha de sete platôs, cada um correspondente a um pecado capital. E para simbolizar como o ser humano se purifica de cada pecado, usou uma alegoria.


O primeiro platô é o da soberba, onde pessoas carregam grandes pedras nas costas para purificar-se do orgulho. Logo acima está a inveja, onde as pessoas têm suas pálpebras fechadas e costuradas. Como olharam a vida toda para que os outros tinham, se purificarão não podendo olhar para mais nada.


Os olhos costurados também têm a ver com a origem da palavra inveja, do latim "invidere", que signfica não ver. Não ver o quê? Não ver a si mesmo, não ver as próprias lacunas e fragilidades. A inveja é uma forma de cegueira.


O que biblicamente é chamado de pecado são emoções, impulsos e comportamentos da porção primitiva da natureza humana, cruciais para a nossa autopreservação, especialmente nos primeiros anos da vida. Esses traços da nossa natureza são egoístas e frequentemente destrutivos. Preservam a nós mesmos, mas nos afastam dos outros. De certa forma nos protegem da dor, mas causam grande sofrimento.

Mas não estamos destinados a ser humanos primitivos por toda a vida. Somos convidados a subir a montanha, a reconhecer e trabalhar esses nossos traços, representados pelos pecados capitais, para a partir deles desenvolver sua contraparte - as virtudes.


A virtude correspondente à inveja é a caridade. Caridade que é amar o próximo como a nós mesmos.


Precisamos então começar por nos amar. Sermos capazes de olhar para dentro e ver a nós mesmos sem medo, sem disfarces, e reconhecer as nossas fraquezas e lacunas, assim como as nossas forças, qualidades e potenciais. Aprender que o nosso valor está em quem somos, e não no que temos, nem no que tentamos aparentar ser. E conforme aprendemos a ser caridosos conosco, podemos ser caridosos também com o outro, com aquele que sente inveja.


A inveja é uma chave de ouro para o autoconhecimento. Para reconhecermos as nossas faltas e nos tornarmos senhores de nós mesmos, ainda que como seres incompletos que somos.


Trecho do Autoconsciente episódio 120 - Quando sentimos inveja




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