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As vozes internas que sabotam a autodisciplina


Fortalecer a autodisciplina não é só uma questão de "vai lá e faz". É preciso também considerar as vozes interiores que a comprometem. São tantas as vozes dizendo coisas diferentes, muitas vezes até conflitantes, como se dentro de nós estivessem disputando um cabo de guerra, a nos puxar para lá e para cá. Como se dentro de nós vivesse uma pequena multidão de pessoinhas, cada uma com ideias próprias sobre o que é melhor para a nossa vida. Ignorar essas vozes, ou tentar abafá-las, só vai fazê-las mais estridentes e tornar as coisas ainda mais difíceis para nós.

Tem aquelas vozes internas que sabotam a nossa autodisciplina.


A voz da indulgência – voz não, é um canto de sereia, hipnótico, a nos dizer "ora, só um pouquinho, só hoje, só desta vez".


A voz da autossabotagem - "que se exploda a autodisciplina, eu não vou passar vontade."


A voz Maria vai com as outras – "ah, está todo mundo fazendo, também vou fazer. "


São vozes tão convincentes... Aí a gente cede ao impulso, satisfaz o nosso desejo, se esbalda. E depois começa a escutar outras vozes.

A voz da autocrítica: "sou mesmo uma fraca, um fracasso, não tenho um pingo de autodisciplina, que vergonha".

A voz da autocondenação: "eu nunca vou conseguir o que quero".

A voz do remorso: "eu não deveria ter cedido".


A voz da culpa: "eu estraguei tudo."


São tantas as vozes. Tem ainda aquelas que sussurram ao nosso ouvido quando precisamos colocar um novo hábito ou atividade na nossa vida – como acordar ou dormir mais cedo, ler livros, manter as nossas coisas ou finanças mais em ordem, fazer exercício físico... Nesses casos podemos ouvir também a voz da preguiça, a da procrastinação, a das desculpas, a voz derrotista – "eu não sou capaz" – e outras mais.


São tantas as vozes dizendo coisas diferentes, muitas vezes até conflitantes, como se dentro de nós estivessem disputando um cabo de guerra, a nos puxar para lá e para cá. Como se dentro de nós vivesse uma pequena multidão de pessoinhas, cada uma com ideias próprias sobre o que é melhor para a nossa vida.


A Cheri Huber, autora do livro "Making a change for good" (ainda não traduzido para o português), se refere a essas vozes como subpersonalidades, quer dizer, facetas ou aspectos da nossa personalidade. Aqui no Autoconsciente, a gente usa a palavra ego, não é? Portanto, as subpersonalidades como chamadas pela Cheri seriam seriam aspectos do nosso ego.

Quando e como nasceram essas subpersonalidades? É no mesmo "lugar" e do mesmo modo de sempre – infância. Sem mais comentários, você que acompanha o podcast já me ouviu falar algumas vezes sobre isso. Inclusive no episódio anterior, sobre autoconfiança

Como explica a Cheri, nossas subpersonalidades são fruto dos esforços de adaptação que quando crianças fizemos para atender as demandas e expectativas dos adultos importantes em nossa vida e para sermos aceitos.


As subpersonalidades existem para obter o atendimento de necessidades específicas, cada uma do seu modo, cada uma com o seu foco. Aquela que cria o compromisso de acordar mais cedo não é a mesma que nos leva a desligar o despertador e ficar mais tempo entre as cobertas porque está gostoso ali. Aquela que resolve aprender um novo idioma não é a mesma que desiste por vergonha de falar errado. A que decide fazer dieta não é a mesma que enfia o pé na jaca, nem a mesma que, depois, nos esculacha por não ter autodisciplina.


No quesito maturidade emocional, as nossas subpersonalidades permanecem crianças, ainda que nos ajudem a obter a satisfação de necessidades e desejos de adultos. A Cheri diz: "Elas são indisciplinadas, assustadas, exuberantes, impulsivas, adoráveis e totalmente egoístas. E não são más, são apenas como crianças que tudo fazem para obter amor, orientação, estrutura, segurança e cuidado. De certa forma, é como se as subpersonalidades fossem nossos filhos: não podemos simplesmente nos livrar delas, decidir quais ficam e quais vão embora. Nós só precisamos aprender ouvi-las, reconhecê-las e não permitir que sabotem o que queremos para a nossa vida. "


Em seu livro, a Cheri Huber defende a seguinte tese: o nosso problema não é falta de autodisciplina. É falta de presença. Entendendo aí "presença" como autoconsciência, como a prática constante de prestar atenção a nós, ao que se passa no nosso interior, às sensações e pensamentos. Nesse estado de presença, nós percebemos as nossas vozes internas e podemos decidir se iremos nos deixar levar por elas nelas ou não. Nesse estado de presença, nós percebemos os desejos surgirem e podemos decidir se iremos ceder a eles ou não.


E como a gente desenvolve essa presença? Adivinha.... É com a meditação de atenção plena, o mindfulness.


É muito comum a ideia de que meditar é esvaziar a mente, é entrar em um silêncio absoluto. Deixe de lado essa ideia, ela não se aplica ao mindfulness. O que a gente faz em uma prática é trazer a atenção para nós, para uma sensação do nosso corpo – a respiração, por exemplo. Por instantes sentimos a respiração, a nossa mente se aquieta... Mas isso não dura muito. Logo surgem pensamentos, e, como estamos prestando atenção a nós, percebemos esses pensamentos. Então nós reconduzimos a atenção para a respiração, a mente se aquieta por instantes, até novamente surgirem pensamentos, e assim sucessivamente.


Um efeito da prática de mindfulness é que a gente aprende a observar com distanciamento as vozes interiores que, entre outras coisas, sabotam a nossa autodisciplina. Aprendemos a observar os nossos desejos sem ter que reagir imediatamente a eles.

A Cheri explica que nós podemos perceber as vozes das nossas subpersonalidades, mas nem por isso acreditar no que elas dizem. Perceber e acreditar não são a mesma coisa. Acreditar nos leva a aquelas atitudes que vivemos repetindo, que comprometem os nossos objetivos e nos colocam em uma situação de sofrimento e insatisfação conosco mesmos. Por outro lado, perceber nos permite distinguir "quem" está falando, que voz está falando e o que ela está dizendo. A Cheri diz: " É importante perceber as vozes que ecoam na sua cabeça, mas você não precisa se deixar levar por elas".


Agora, um ponto importante: a atitude de não nos deixar levar pelas vozes das nossas subpersonalidades não significa que devamos combatê-las nem hostilizá-las. Longe disso. Vamos nos lembrar que o que essas vozes querem é apenas que suas necessidades sejam atendidas. A atitude com as nossas vozes é de observação sem julgamento. O estado de presença é também de aceitação daquilo observamos.

O que eu posso lhe dizer é que para mim, praticar meditação está me tornando uma pessoa mais compreensiva e gentil comigo mesma.


Quando percebo a voz da procrastinação, eu entendo que há algo que estou querendo evitar. Quando escuto a voz da autocrítica, compreendo que no fundo a intenção é que eu corrija meus erros e cumpra meus compromissos. Eu interpreto as vozes da indulgência e da preguiça como manifestações de uma parte de mim que busca o prazer. Intepreto as vozes do arrependimento, da autocondenação, da culpa, vergonha ou derrotismo como sinais de que tenho medos, inseguranças, rigidez e perfeccionismo que eu preciso trabalhar.


Eu não brigo com as minhas vozes e sei que eu posso escolher fazer algo diferente do que elas estão dizendo, algo que me leve ao encontro do meu objetivo. E seu eu não fizer, está tudo bem, eu posso aprender com isso. Da próxima vez, eu poderei fazer. Teremos muitas oportunidades de fortalecer a autodisciplina para atingir os nossos objetivos.


Trecho do Autoconsciente Podcast episódio 109 - Autodisciplina





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